sexta-feira, 23 de junho de 2017

Jessé Souza: “A classe média é feita de imbecil pela elite”

por Sergio Lirio 
Os extratos médios, diz o sociólogo, defendem de forma acrítica os interesses dos donos do poder e perpetuam uma sociedade cruel forjada na escravidão
Inocentes úteis? Ou só úteis?
Em agosto, o sociólogo Jessé Souza lança novo livro, A Miséria da Elite – da Escravidão à Lava Jato. De certa forma, a obra compõe uma trilogia, ao lado de A Tolice da Inteligência Brasileira, de 2015, e de A Ralé Brasileira, de 2009, um esforço de repensar a formação do País.


Neste novo estudo, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada aprofunda sua crítica à tese do patrimonialismo como origem de nossas mazelas e localiza na escravidão os genes de uma sociedade “sem culpa e remorso, que humilha e mata os pobres”. A mídia, a Justiça e a intelectualidade, de maneira quase unânime, afirma Souza na entrevista a seguir, estão a serviço dos donos do poder e se irmanam no objetivo de manter o povo em um estado permanente de letargia. A classe média, acrescenta, não percebe como é usada. “É feita de imbecil” pela elite.

CartaCapital: O impeachment de Dilma Rousseff, afirma o senhor, foi mais uma prova do pacto antipopular histórico que vigora no Brasil. Pode explicar?
Jessé Souza: A construção desse pacto se dá logo a partir da libertação dos escravos, em 1888. A uma ínfima elite econômica se une uma classe, que podemos chamar de média, detentora do conhecimento tido como legítimo e prestigioso. Ela também compõe a casta de privilegiados. São juízes, jornalistas, professores universitários. O capital econômico e o cultural serão as forças de reprodução do sistema no Brasil.

Em outra ponta, temos uma classe trabalhadora precarizada, próxima dos herdeiros da escravidão, secularmente abandonados. Eles se reproduzem aos trancos e barrancos, formam uma espécie de família desestruturada, sem acesso à educação formal. É majoritariamente negra, mas não só. Aos negros libertos juntaram-se, mais tarde, os migrantes nordestinos. Essa classe desprotegida herda o ódio e o desprezo antes destinados aos escravos. E pode ser identificada pela carência de acesso a serviços e direitos. Sua função na sociedade é vender a energia muscular, como animais. É ao mesmo tempo explorada e odiada.

CC: A sociedade brasileira foi forjada à sombra da escravidão, é isso?
JS: Exatamente. Muito se fala sobre a escravidão e pouco se reflete a respeito. A escravidão é tratada como um “nome” e não como um “conceito científico” que cria relações sociais muito específicas. Atribuiu-se muitas de nossas características à dita herança portuguesa, mas não havia escravidão em Portugal. Somos, nós brasileiros, filhos de um ambiente escravocrata, que cria um tipo de família específico, uma Justiça específica, uma economia específica. Aqui valia tomar a terra dos outros à força, para acumular capital, como acontece até hoje, e humilhar e condenar os mais frágeis ao abandono e à humilhação cotidiana.

CC: Um modelo que se perpetua, anota o senhor no novo livro.
JS: Sim. Como essa herança nunca foi refletida e criticada, continua sob outras máscaras. O ódio aos pobres é tão intenso que qualquer melhora na miséria gera reação violenta, apoiada pela mídia. E o tipo de rapina econômica de curto prazo que também reflete o mesmo padrão do escravismo. 

CC: Como isso influencia a interpretação do Brasil?
JS: A recusa em confrontar o passado escravista gera uma incompreensão sobre o Brasil moderno. Incluo no problema de interpretação da realidade a tese do patrimonialismo, que tanto a direita quanto a esquerda, colonizada intelectualmente pela direita, adoram. O conceito de patrimonialismo serve para encobrir os interesses organizados no chamado mercado. Estigmatiza a política e o Estado, os “corruptos”, e estimula em contraponto a ideia de que o mercado é um poço de virtudes.

"O ódio aos  pobres é intenso"

CC: O moralismo seletivo de certos setores não exprime mais um ódio de classe do que a aversão à corrupção?
JS: Sim. Uma parte privilegiada da sociedade passou a se sentir ameaçada pela pequena ascensão econômica desses grupos historicamente abandonados. Esse sentimento se expressava na irritação com a presença de pobres em shopping centers e nos aeroportos, que, segundo essa elite, tinham se tornado rodoviárias.

A irritação aumentou quando os pobres passaram a frequentar as universidades. Por quê? A partir desse momento, investiu-se contra uma das bases do poder de uma das alas que compõem o pacto antipopular, o acesso privilegiado, quase exclusivo, ao conhecimento formal considerado legítimo. Esse incômodo, até pouco tempo atrás, só podia ser compartilhado em uma roda de amigos. Não era de bom tom criticar a melhora de vida dos mais pobres.

CC: Como o moralismo entra em cena?
JS: O moralismo seletivo tem servido para atingir os principais agentes dessa pequena ascensão social, Lula e o PT. São o alvo da ira em um sistema político montado para ser corrompido, não por indivíduos, mas pelo mercado. São os grandes oligopólios e o sistema financeiro que mandam no País e que promovem a verdadeira corrupção, quantitativamente muito maior do que essa merreca exposta pela Lava Jato. O procurador-geral, Rodrigo Janot, comemora a devolução de 1 bilhão de reais aos cofres públicos com a operação. Só em juros e isenções fiscais o Brasil perde mil vezes mais.


Souza: novo livro em agosto (Foto: Filipe Vianna)
CC: Esse pacto antipopular pode ser rompido? O fato de os antigos representantes políticos dessa elite terem se tornado alvo da Lava Jato não fragiliza essa relação, ao menos neste momento?
JS: Sem um pensamento articulado e novo, não. A única saída seria explicitar o papel da elite, que prospera no saque, na rapina. A classe média é feita de imbecil. Existe uma elite que a explora. Basta se pensar no custo da saúde pública. Por que é tão cara? Porque o sistema financeiro se apropriou dela. O custo da escola privada, da alimentação. A classe média está com a corda no pescoço, pois sustenta uma ínfima minoria de privilegiados, que enforca todo o resto da sociedade. A base da corrupção é uma elite econômica que compra a mídia, a Justiça, a política, e mantém o povo em um estado permanente de imbecilidade.

CC: Qual a diferença entre a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos?
JS: Não há tanta diferença. Nos Estados Unidos, a parte não escravocrata dominou a porção escravocrata. No Brasil, isso jamais aconteceu. Ou seja, aqui é ainda pior. Os Estados Unidos não são, porém, exemplares. Por conta da escravidão, são extremamente desiguais e violentos. Em países de passado escravocrata, não se vê a prática da cidadania. Um pensador importante, Norbert Elias, explica a civilização europeia a partir da ruptura com a escravidão. É simples. Sem que se considere o outro humano, não se carrega culpa ou remorso. No Brasil atual prospera uma sociedade sem culpa e sem remorso, que humilha e mata os pobres. 

CC: Algum dia a sociedade brasileira terá consciência das profundas desigualdades e suas consequências?
JS: Acho difícil. Com a mídia que temos, desregulada e a serviço do dinheiro, e a falta de um padrão de comparação para quem recebe as notícias, fica muito complicado. É ridícula a nossa televisão. Aqui você tem programas de debates com convidados que falam a mesma coisa. Isso não existe em nenhum país minimamente civilizado. É difícil criar um processo de aprendizado.

CC: O senhor acredita em eleições em 2018?
JS: Com a nossa elite, a nossa mídia, a nossa Justiça, tudo é possível. O principal fator de coesão da elite é o ódio aos pobres. Os políticos, por sua vez, viraram símbolo da rapinagem. Eles roubam mesmo, ao menos em grande parte, mas, em analogia com o narcotráfico, não passam de “aviõezinhos”. Os donos da boca de fumo são o sistema financeiro e os oligopólios. São estes que assaltam o País em grandes proporções. E somos cegos em relação a esse aspecto. A privatização do Estado é montada por esses grandes grupos. Não conseguimos perceber a atuação do chamado mercado. Fomos imbecilizados por essa mídia, que é paga pelos agentes desse mercado. Somos induzidos a acreditar que o poder público só se contrapõe aos indivíduos e não a esses interesses corporativos organizados. O poder real consegue ficar invisível no País.

CC: O quanto as manifestações de junho de 2013, iniciadas com os protestos contra o reajuste das tarifas de ônibus em São Paulo, criaram o ambiente para a atual crise política?
JS: Desde o início aquelas manifestações me pareceram suspeitas. Quem estava nas ruas não era o povo, era gente que sistematicamente votava contra o projeto do PT, contra a inclusão social. Comandada pela Rede Globo, a mídia logrou construir uma espécie de soberania virtual. Não existe alternativa à soberania popular. Só ela serve como base de qualquer poder legítimo. Essa mídia venal, que nunca foi emancipadora, montou um teatro, uma farsa de proporções gigantescas, em torno dessa soberania virtual.

Um resumo das relações sociais no Brasil
CC: Mas aquelas manifestações foram iniciadas por um grupo supostamente ligado a ideias progressistas...

JS: Só no início. A mídia, especialmente a Rede Globo, se sentiu ameaçada no começo daqueles protestos. E qual foi a reação? Os meios de comunicação chamaram o seu povo para as ruas. Assistimos ao retorno da família, propriedade e tradição. Os mesmos “valores” que justificaram as passeatas a favor do golpe nos anos 60, empunhados pelos mesmos grupos que antes hostilizavam Getúlio Vargas. Esse pacto antipopular sempre buscou tornar suspeito qualquer representante das classes populares que pudesse ser levado pelo voto ao comando do Estado. Não por acaso, todos os líderes populares que chegaram ao poder foram destituídos por meio de golpes.

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/jesse-souza-201ca-classe-media-e-feita-de-imbecil-pela-elite201d?utm_campaign=CartaCapital+Newsletter&utm_content=Jess%C3%A9+Souza%3A+%E2%80%9CA+classe+m%C3%A9dia+%C3%A9+feita+de+imbecil+pela+elite%E2%80%9D+%E2%80%94+CartaCapital+%282%29&utm_medium=email&utm_source=EmailMarketing&utm_term=Newsletter

João Paulo II: os anos terror na Igreja (artigo 1 de 3)



João Paulo II e Pinochet no Palácio de La Moneda, em Santiago (1987), onde o presidente Salvador Allende fora assassinado em 1973 pelas tropas do exército


O pontificado de João Paulo II ainda hoje é entendido pela opinião pública como governo de um homem de fé enraizada, carismático, determinado, defensor da paz, corajoso. Ao longo dos 26 anos de seu longo papado, entre outubro de 1978 e até sua morte, em 2 de abril de 2005, Karol Józef Wojtyła tornou-se um superstar, mobilizando multidões em suas viagens ao redor do planeta. Sua resiliência em conduzir a Igreja doente, alquebrado, imerso em dores, reforçou ainda mais sua imagem.

Mas há um lado que ficou escondido ao longo dos anos, distante dos olhos da imensa maioria das pessoas: foram anos de punições, medo e até terror no interior da Igreja; dirigido contra bispos, padres, freiras e leigos ligados à Teologia da Libertação ou simplesmente adeptos do Concílio Vaticano II. O objetivo: liquidar a Teologia da Libertação, o espírito da primavera do Concílio Vaticano II e realizar o que João Paulo afirmou como prioridade de seu papado, no discurso inaugural: restaurar “a grande disciplina” (leia aqui a mensagem Urbi et Orbi de 17 de outubro de 1978, no dia seguinte à eleição do cardeal Wojtyła como Papa).

Numa breve série de três artigos aqui no Caminho Pra Casa você lerá: 1) uma visão panorâmica do governo de João Paulo II; 2) depois, uma lista inédita que, longe de ser exaustiva, apresenta quase 200 ações repressivas de João Paulo II que semearam medo e silêncio na Igreja; 3) finalmente, o arcabouço doutrinal/institucional desenhado por João Paulo II e seu braço direito, o cardeal Joseph Ratzinger, que seria seu sucessor, com o objetivo de consolidar a visão que o Papa Francisco hoje qualifica de restauracionista e inviabilizar uma nova primavera –que finalmente chegou com a eleição de Jorge Mario Bergoglio em 2013 .

Foi um tempo longo, da “grande disciplina”, expressão que o teólogo brasileiro João Batista Libânio (1932-2014) tomou do discurso de João Paulo II e consagrou como definidora do pontificado. O teólogo belga e brasileiro por ternura José Comblin (1923-2011) qualificou o tempo de Wojtyła de “noite escura”. O maior teólogo do século XX, Karl Rahner, vítima de uma campanha de um ataques agressivos pelo Vaticano menos de um ano depois de sua morte, em 1984, cunhou outro termo para o tempo da restauração conservadora: “Igreja invernal” –um inverno longo, frio, de chumbo.



Para que se tenha uma ideia do que foram os 26 anos do Papa polonês: o principal organismo de relacionamento do Vaticano com a Igreja universal durante o período foi Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora Sacra Congregação da Inquisição Universal e da Congregação do Santo Ofício. Não por coincidência, esteve à frente da polícia vaticana o cardeal Joseph Ratzinger, braço direito de João Paulo e seu sucessor. O outro “martelo” de João Paulo foi o cardeal Bernardin Gantin, prefeito da Congregação dos Bispos, que se encarregou de ameaçar e punir bispos e conferências episcopais ao redor do planeta.

Houve de tudo ao longo dos anos da grande disciplina na Igreja surgida paradoxalmente na esteira de Jesus sob o signo do amor: censuras, silêncios obrigatórios, renúncias compulsórias, repreensões públicas humilhantes, interrogatórios com base em tortura psicológica, acobertamento de crimes e até omissão cúmplice diante de um sem número de assassinatos de leigos, freiras, padres e bispos, na América Latina.

João Paulo II assumiu o pontificado obcecado pela ideia de ser protagonista na derrocada dos regimes do socialismo real no Leste Europeu e, muito especialmente, na sua Polônia. Para isso, estabeleceu uma sólida aliança com Margareth Tatcher, que se tornou primeira-ministra do Reino Unido poucos meses depois de sua eleição e, de maneira muito especial, com Ronald Reagan, eleito presidente dos Estados Unidos dois anos depois de sua posse –com ele, a relação evoluiu para amizade.

Pode parecer inacreditável, mas João Paulo II recebeu agentes da CIA mais de 15 vezes no Vaticano para troca de informações, inicialmente sobre o Leste Europeu e particularmente sobre a Polônia. Mais tarde, com a decisão do Papa de combater sem tréguas a Teologia da Libertação na América Latina, o Vaticano passou a se utilizar dos informes da CIA sobre leigos e clérigos católicos que se opunham aos regimes ditatoriais e defendiam os pobres na região.

Ato contínuo seguiram-se punições e repreensões públicas de João Paulo II à Teologia da Libertação e a teólogos, teólogas, padres e bispos a ela vinculados. Dois exemplos: foram amplamente divulgadas as cenas da humilhante censura públicas de Wojtyła ao padre Ernesto Cardenal (veja o vídeo abaixo), ajoelhado a seus pés em Manágua, em 1983 –no ano seguinte, ele e os padres Fernando Cardenal (seu irmão), Miguel D’Escoto e Edgard Parrares foram suspensos por tempo indeterminado do exercício do sacerdócio, pena que só foi revogada em 2014 pelo Papa Francisco; antes disso, o arcebispo de El Salvador, dom Oscar Romero estivera em 1979 com João Paulo II no Vaticano e fora tratado de maneira grosseira pelo Papa, que o repreendeu duramente por sua caminhada com os pobres, ordenando que ele se submetesse ao governo genocida de seu país –a mensagem que chegou aos bispos reacionários salvadorenhos e, deles, aos militares.





Estes e centenas de outros fatos como a amistosa visita ao sanguinário Augusto Pinochet no Chile em 1987 foram corretamente interpretados pelos governos militares da América Latina e seus serviços de segurança entre o final dos anos 70 e as décadas seguintes: os leigos e clérigos que caminhassem com os pobres e de alguma maneira vinculados à Teologia da Libertação estariam por sua conta e risco, sem qualquer apoio do Vaticano –ao contrário, sofriam hostilidade aberta de João Paulo II e seus subordinados diretos. Resultado: ações repressivas de todo o tipo, desde exílios a prisões, torturas e mortes. O caso mais emblemático foi o de Romero. Abandonado pelo Vaticano em 1979, foi assassinado pelos militares enquanto celebrava missa em San Salvador em 24 de março de 1980. Nem a morte livrou o arcebispo de El Salvador da perseguição vaticana: iniciou-se uma virulenta campanha de difamação de dom Oscar Romero pela Cúria romana, conforme o Vaticano reconheceu recentemente (aqui).

Ao mesmo tempo em que o clero foi colocado de joelhos diante do Vaticano, os teólogos e teólogas foram tratados como inimigos pela ação combinada de Wojtyła/Ratzinger –cerca de 150 deles foram interrogados de maneira inquisitorial por Ratzinger ou em outras instâncias doutrinárias do Vaticano, advertidos na maioria dos casos punidos, depostos de suas cátedras em universidades, demitidos de cargos em publicações católicas, proibidos de publicar livros, proferir palestras, entre outras punições.

Não houve qualquer traço de compaixão com aqueles que, afinal, pertenciam à mesma Igreja. O padre e teólogo Bernard Häring (1912-1998), muito querido por seus pares, já velho e gravemente doente, com um câncer na garganta, foi perseguido, vigiado, investigado por oito anos e levado a longos interrogatórios e julgamento nas salas da ex-Inquisição. Em sua autobiografia, o teólogo alemão afirmou que nem os tribunais da Alemanha nazista foram tão duros quanto os do Vaticano (aqui).

O cerco aos teólogos chegou ao ponto de o Vaticano proibir que eles estivessem presentes na qualidade de assessores dos bispos durante a conferência do episcopado latino-americano de 1979, a Conferência de Puebla: quase 50 deles viajaram à cidade mexicana a pedido de vários bispos, abrigando-se em apartamentos na cidade e reunindo-se com os religiosos de maneira clandestina.

No Brasil, o terror abalou a Igreja local profundamente. Os principais líderes do episcopado foram atacados, como dom Helder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, dom Pedro Casaldáliga, dom Ivo Lorscheiter, entre outros. A CNBB foi manietada. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e os conselhos diocesanos e paroquiais, instâncias de uma Igreja circular no formato da relação de Jesus com seus amigos, desarticuladas . As brutais punições a frei Leonardo Boff foram escolhidas como símbolo para atemorizar quem ousasse afrontar a restauração romana. Em 1984, ele foi condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé a um ano de “silêncio obsequioso”, sendo proibido de escrever, lecionar, dar palestras ou sequer entrevistas. Os cardeais Arns e Lorscheiter, que acompanharam Boff em seu interrogatório no Vaticano, foram abertamente hostilizados por Ratzinger. O moto das punições a Boff: seu livro Igreja, Carisma e Poder (1981) –não sem uma ponta de ironia amarga, as teses do livro foram assumidas e radicalizadas pelo Papa Francisco, mais de 30 anos depois.

O corolário doutrinal dos anos de chumbo foi o sínodo dos bispos de 1985, convocado por João Paulo II e conduzido com mão de ferro por Ratzinger com o objetivo de revogar os aspectos centrais do Concílio Vaticano II, apesar das seguidas frases laudatórias ao encontro de 20 antes, e restaurar a perspectiva fechada do Concílio Vaticano I (1869-70). O conceito basilar de Igreja como Povo de Deus foi, na prática, revogado. Os outros dois documentos que completaram a arquitetura restauracionista foram o Código de Direito Canônico (1983), que judicializou por completo as relações no interior da Igreja, e o Catecismo da Igreja Católica (1992) que mais uma vez, como na Idade Média, tentou transformar o cristianismo numa religião de manual, baseado numa visão de “pode-não pode”.

Na América Latina, a doutrina vestiu as armas da guerra declarada. Primeiro, com o violento ataque de João Paulo II à Teologia da Libertação e sua ordem unida dirigida aos bispos, na abertura da Conferência de Puebla; depois, em 1984, com a Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação, da Congregação para a Doutrina da Fé, assinada por Ratzinger, que condenou-a em sua totalidade como uma perigosa subversão, ao escrever que “a nova interpretação atinge assim todo o conjunto do mistério cristão”. Finalmente, na exortação apostólica depois do Sínodo das Américas, a Ecclesia in America, de 1999, João Paulo II retomou as formulações piedosas dos séculos XVII, XVIII e XIX sobre os pobres, lançou ao mar opção preferencial pelos pobres dos Evangelhos e reafirmada pelo Concílio Vaticano II e buscou alinhar a Igreja da região aos interesses do sistema.

Um dos resultados mais dramáticos do governo monárquico dos “terroristas da fé”, como os qualificou Häring , foi o acobertamentos a todo tipo de abusos e crimes, como é usual nos regimes ditatoriais:

1) Durante 30 anos houve sucessivos escândalos financeiros do Banco do Vaticano (o Instituto para as Obras de Religião – IOR), com casos desde lavagem de dinheiro a investimentos na indústria armamentista sem que qualquer medida saneadora fosse adotada.

2) A Opus Dei, um dos pilares da ditadura franquista na Espanha, foi transformada em prelazia pessoal do Papa João Paulo II, em 1982, o que lhe deu direito de atuar no mundo inteiro, sem a licença do bispo local.

João Paulo e o amigo Marcial Maciel
3) O padre mexicano Marcial Maciel foi o grande “amigo do peito” de Wojtyła. Fundador dos ultraconservadores Legionários de Cristo e Regnum Christi, tinha uma vida dupla, com pregações moralistas conservadoras, ao estilo dos cardeais que se opõem a Francisco hoje, enquanto era casado com duas mulheres, teve vários filhos, casos sem conta de abusos sexuais de menores e envolvimento com traficantes de drogas, além de ter plagiado suas principais obras, entre elas o livro de cabeceira dos Legionários, Saltério de Meus Dias. Nunca perdeu a proteção e privilégios junto a João Paulo II, apesar de o Papa ter recebido por décadas denúncias sem número contra Maciel. Morreu sem qualquer punição em 2008.

4) Wojtyła acobertou conscientemente os milhares de casos de pedofilia e todo tipo de abusos contra crianças, jovens e mulheres –sua ação está fartamente documentada. O auge foi em 2001, quando os escândalos e a revelação das sequelas sobre as vítimas, de traumas a suicídios, havia se tornado uma enxurrada. Ratzinger, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, emitiu e enviou a todos os bispos a Epistula de delictis gravioribus na qual reduzia os crimes de pedofilia a delitos de cunho religioso contra a eucaristia e o sacramento da penitência, qualificando-os de meros “delitos contra os costumes”, “contra o sexto mandamento do Decálogo cometido por um clérigo com um menor de 18 anos”. A tentativa de minimizar a gravidade dos milhares de crimes de abusos pode ser mensurada pela referência ao sexto dos Dez Mandamentos: “Guardar castidade nas palavras e nas obras”. Ainda mais: os crimes assumiram a condição de “Secretum Pontificium” –todo o acolhimento foi reservado aos criminosos, toda a hostilidade às vítimas, conforme se testemunhou ao longo dos últimos anos, especialmente depois de o Papa Francisco ter decidido enfrentar a situação, apesar da resistência da Cúria romana e da hierarquia.

Foi devastador o impacto dos anos de chumbo e degradação sobre a base da formação eclesial, os seminários e as casas de formação de religiosos. A Teologia da Libertação e, em verdade, todo o estudo teológico foram varridos ocuparam seu lugar disciplinas sobre legislação, carreira, vestes, festas e poderes. Os efeitos estendem-se até hoje: “(…) nos seminários, nos centros de estudos teológicos, há medo, muito medo”, escreveu recentemente o teólogo espanhol José María Castillo, ele mesmo punido por Ratzinger em 1988.

Se na base da formação eclesial imperou o medo, no alto a tônica foi a exigência de rendição completa: o processo de nomeação de bispos e cardeais passou a ser conduzido a partir da fidelidade canina dos clérigos ao poder avassalador de Roma. Buscou-se garantir a eternização da restauração com nomeação em massa de cardeais eleitores do sucessor de João Paulo II: foram 231 cardeais em 9 consistórios, um número sem precedentes na história da Igreja, garantindo um colégio eleitoral de 120 homens todos de sua escolha. O resultado é conhecido: com a morte de Wojtyła, elegeu-se seu braço direito, Ratzinger, em 2005.

Rapidamente correu-se a canonizar o Papa, o que aconteceu em apenas nove anos, em 2014, quando é usual que tais processos demandem décadas -isso apesar de haver oposição explícita de segmentos da Igreja à canonização. Tratava-se de, ao declarar Wojtyła santo, de colocar uma pedra sobre seu pontificado, para bloquear as investigações e avaliações -quem, dentro da Igreja, terá coragem de se levantar contra um santo?

Os 35 anos de Wojtyła/Ratzinger (1978-2013), deixaram a Igreja aos frangalhos, a ponto de um colégio de cardeais nomeado integralmente por ambos, de perfil conservador, ter se dado conta que a crise chegara ao limite, ameaçando a própria existência da instituição e decidido eleger em 2013 o argentino Jorge Mario Bergoglio como novo Papa: Francisco. Depois de 26 anos de João Paulo II e mais nove de Bento XVI, a muitos a primavera parecia impossível. Mas aconteceu.

No próximo artigo da série, você lerá uma inédita e impressionante lista de mais de 200 atos que estabeleceram o terror na Igreja sob João Paulo II.

[Mauro Lopes]
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Referências bibliográficas
Há uma ampla bibliografia sobre o pontificado de João Paulo II, caso você queira aprofundar-se no assunto. Separei algumas indicações.
O livro que se tornou uma referência global sobre o papado de Wojtyła foi o do teólogo brasileiro João Batista Libânio (1932-2011):
A grande disciplina, João Batista Libânio. São Paulo: Loyola, 1983
Outras sugestões:
Cenários da Igreja, João Batista Libânio. São Paulo: Loyola, 2ª Edição, 1999
A Igreja do Brasil – de João XXII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo, José Oscar Beozzo. Petrópolis: Editora Vozes, 1994
Da Esperança à Utopia: Testemunho de uma vida, dom Paulo Evaristo Arns. Rio de Janeiro: Sextante. 2001.
Igreja, Carisma e Poder, Leonardo Boff. Petrópolis: Editora Vozes, 1981
O caso Leonardo Boff. São Paulo: Centro de Pastoral Vergueiro, 1986
O Povo de Deus, José Comblin. São Paulo: Paulus, 2002
Um novo amanhecer na Igreja?, José Comblin. Petrópolis: Editora Vozes, 2002
Teologia da libertação, Teologia neoconservadora e teologia liberal, José Comblin. Petrópolis: Editora Vozes, 1985
A Igreja tem Salvação?, Hans Küng. São Paulo: Paulus, 2012
A autoridade da verdade, J. González Faus. São Paulo: Loyola, 1998
Guerra dos Deuses: Religião e política na América Latina, Michael Löwy. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2000
Diálogos nas Sombras: Bispos e Miltares, tortura e justiça social na ditadura, Kenneth P. Serbin, São Paulo: Companhia das Letras. 2001.

Sobre as relações entre João Paulo II, Ronald Reagan,  Margareth Tatcher e o uso de informações da CIA 
Sua Santidade, Carl Berstein e Marco Politi. Rio: Editora Objetiva, 996
O Presidente, o Papa e a Primeira-Ministra, John O’Sullivan. Lisboa: Alethêia Editores, 2007
O Vaticano e o Governo Reagan: convergências na América Central, Ana Maria Ezcurra. São Paulo: Editora Hucitec, 1984

http://outraspalavras.net/maurolopes/2017/06/22/joao-paulo-ii-os-anos-terror-na-igreja-artigo-1-de-3/

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Justiça do PA recebe mandado de prisão contra Regivaldo Galvão, condenado por morte de irmã Dorothy


Fazendeiro teve mandado de prisão expedido em seu nome recebido nas delegacias do estado e pode ser preso qualquer instante.


Regivaldo Galvão, também apontado como mandante, foi julgado em 2010 mas recorreu e respondia em liberdade (Foto: Elivaldo Pamplona / O Liberal)

O Tribunal de Justiça do Pará confirmou nesta quarta-feira (21) que as delegacias do estado receberam um mandado de prisão contra o fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão, considerado um dos mandantes do assassinato de Dorothy Stang em 2005 na cidade de Anapu, sudeste do Pará. O G1 tenta contato com a defesa do fazendeiro.

Galvão foi condenado em 2010 a 30 anos de prisão, mas aguardava o julgamento de um recurso em liberdade. Só que neste mês de junho o Habeas Corpus que o mantinha solto foi negado pelo Supremo Tribunal Federal, que também revogou o seu direito de aguardar a tramitação do recurso em liberdade.

Irmã Dorothy Stang foi morta em fevereiro de 2005 (Foto: Reprodução/TV Globo)


Entenda o caso

A missionária norte-americana Dorothy Stang foi morta a tiros em 12 de fevereiro de 2005, em Anapu (PA). Segundo a Promotoria, a missionária foi assassinada porque defendia a implantação de assentamentos para trabalhadores rurais em terras públicas que eram reivindicadas por fazendeiros e madeireiros da região.

Outros quatro acusados de participação no caso, entre executores e mandantes, foram julgados e condenados a penas que variam de 17 a 27 anos de reclusão.

O fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão foi condenado a 30 anos reclusão no dia 30 de abril de 2010. Na sentença, o juiz Raimundo Alves Flexa, da 2ª Vara do Tribunal do Júri, decretou a prisão preventiva do réu.

O fazendeiro foi beneficiado por uma liminar da desembargadora Maria de Nazaré Gouvêa para aguardar o julgamento do recurso de apelação em liberdade provisória. A decisão foi confirmada, em junho de 2010, pelas Câmaras Criminais Reunidas do Pará, e em maio de 2012 pelo Superior Tribunal de Justiça. Em agosto de 2012 Galvão recebeu Habeas Corpus do STF.



http://g1.globo.com/pa/para/noticia/justica-revoga-liberdade-de-regivaldo-galvao-condenado-em-2010-pela-morte-de-dorothy-stang.ghtml

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Polêmica: a esquerda reativa


Por Camila Spósito

A imagem acima faz soar o alerta máximo: é urgente falarmos de valores na era da pós-modernidade e seus impactos na atuação política. Também é urgente avaliarmos se temos tanta certeza assim sobre quem realmente nos representa politicamente, pois parece que parte relevante da esquerda embarcou de vez na sociedade do espetáculo e se tornou reativa ao discurso fascista da direita, deixando de ser a voz emancipatória que poderia nos guiar para uma alternativa progressista em relação à já moribunda democracia burguesa.

O que ocorre é: ao sermos reativos, espelhamos exatamente aquilo que combatemos. Em vez de superar a lógica do que queremos extinguir, perpetuamos, com sinais trocados. A intenção pode ser outra, mas o impacto social bruto é de aumentar um ambiente inóspito aos anseios de liberdade, seja ela civil, política, econômica, religiosa, etc.

Na foto vemos Kathy Griffin, uma atriz e ativista americana apoiadora do partido democrata, derrotado por Trump nas urnas, segurando o que seria a cabeça do atual presidente dos EUA, decapitada e ensanguentada. Observe por um minuto o que essa imagem lhe evoca antes de refletir racionalmente e montar seu argumento, por favor.

Por mais absurdas que sejam as declarações classistas, misóginas, homofóbicas e racistas de Trump, representantes do que seria a ala progressista oposta a esse retrocesso têm o dever de oferecer em cada ato político, no conteúdo e na forma, uma alternativa melhor do que a barbárie para a solução de conflitos, ainda que simbolicamente. Afinal, esta é a sua razão de ser.

É por isso que, em certo sentido, o ato de Kathy assume uma gravidade que não existe em nenhuma das declarações abomináveis de Trump: se estas são muito piores em seus efeitos imediatos, pois machismo e homofobia matam todos os dias, aquelas sinalizam a morte de qualquer possibilidade de superação, pois demonstram a renúncia dessa via emancipatória pelos únicos que ainda a defendiam.

Fato a ser notado é que o ato seja protagonizado por uma mulher. No auge da primavera feminista, em que nossos anseios estão sendo incorporados pelo sistema em vários níveis culturais, é possível acreditar que o futuro seja mesmo feminino. A ação de Kathy me faz questionar, contudo, que futuro será esse?

Não basta que tenhamos mulheres aparecendo e ocupando cargos. A ação das mulheres na esfera pública deve ser perfeitamente consciente da sua responsabilidade ímpar porque não se trata de uma divisão do poder que já existe apenas, mas sim da construção de uma nova forma de exercer o poder. Nós somos o futuro não só porque somos maioria populacional e sim porque podemos fazer melhor que eles. O feminismo ao qual me filio quer não só a distribuição igualitária de poder entre os gêneros, mas também a superação dessas formas violentas de resolução de conflitos, tão própria do patriarcado.

É claro que não podemos confundir jamais a violência do opressor com a reação de defesa do oprimido. Não é a função deste texto endossar falsas simetrias do tipo “racismo reverso” ou igualar a cusparada de Jean Willys com as diárias agressões de Bolsonaro. O que se pretende questionar é: a reação que estamos tendo, por mais legítimas que sejam, nos colocam no sentido da emancipação que buscamos, ou nos fazem uma peça de um jogo que não queremos mais jogar?

A barbárie que se desenha à nossa frente, com a impossibilidade de construção de diálogo mínimo e o uso crescente de discursos de ódio de todas as fontes e interesses, é um caminho potencial que estamos trilhando juntos, opressores e oprimidos. Defender a reação como fundamento da atuação política é tão infantil quanto dizer que a crise política “Não é minha culpa, pois não votei na Dilma”. A esquerda tem que deixar de ser reativa e abandonar padrões mentais que empacam a análise política na identificação da “culpa” do opressor, ou vai perder mais uma vez a chance de ser a voz porta-voz da nova sociedade que se anuncia, confirmando, por ação ou omissão, a tendência sombria de ser a vítima histórica.

http://outraspalavras.net/destaques/polemica-a-esquerda-reativa/

terça-feira, 20 de junho de 2017

O lugar das rádios comunitárias no mundo digital




Não conheço Negra Linda pessoalmente. Fui apresentada a ela pela publicação "Rádios Comunitárias em Tempos Digitais", editada pela Amarc (Associação Mundial de Rádios Comunitárias), que ganhei de um amigo com a recomendação: "Leia, você vai gostar". O nome verdadeiro de Negra Linda é Rejane Soares, ela mora no Amapá, é empreendedora, designer, está sempre em contato com povos que vivem nas florestas etem paixão pelo rádio: "É difícil sair do rádio depois que tu é picado pelo bichinho do rádio".

"O rádio é instantâneo, entra em lugares onde a internet não entra, onde não tem Wi-Fi, onde não tem WhatsApp. Às vezes, você vai na casa de farinha dentro de uma comunidade e o rádio está lá, acompanha tudo que acontece na cidade, no mundo. Apesar de o mundo estar muito moderno, para gente que vive aqui na Amazônia, o rádio é primordial para comunicação, para troca de conhecimento e para o fortalecimento da identidade", diz Negra Linda, em entrevista concedida ao repórter Dilliany Justino, da agência informativa Pulsar Brasil.

Pronto, eis-me afinada com os pensamentos de Negra Linda, embora não a conheça. O texto da publicação escrita nos ligou, um tipo de comunicação tão antiga que nele nem pensamos mais. O que hoje se debate e se tenta entender, decifrar, para aproveitar da melhor maneira possível, é essa vastíssima rede de informações via digital.

O livro da Amarc Brasil, recentemente publicado com apoio da Ford Foundation, põe luz também sobre as rádios, um intrincado e antigo modelo de comunicação que se utiliza do espectro eletromagnético para chegar às pessoas. São artigos que buscam analisar os “impactos que a comunicação em rede tem para as rádios comunitárias e livres, as respostas que elas já têm dado e onde elas têm sido ausentes frente às transformações sociais, políticas e tecnológicas em curso”.

No mundo da comunicação, tudo pode ter começado com a batida dos tambores, considerada a primeira internet do mundo. Mas vamos avançar um pouco mais no tempo e repetir aqui as informações de Adriano Belisário, um dos articulistas do livro, jornalista que pesquisa tecnologias livres e comunicação há mais de uma década. Segundo ele, os primeiros experimentos com transmissões por rádio aqui no Brasil foram feitos por Padre Landell de Moura em 1893. Consideraram-no feiticeiro, louco, quebraram seus equipamentos, o transferiram de paróquia, mas nada disso fez o pároco desistir.

Chegamos ao modelo de hoje, que não agrada a todos porque muitas rádios replicam um modelo hegemônico, não respeitam as singularidades de um país tão grande e diverso. As rádios comunitárias podem ocupar um espaço da singularidade. Talvez o ideal seja mesmo que cada comunidade tome para si uma parte do espectro eletromagnético e aproveite ao máximo esse espaço para comunicar.

Um caso pioneiro no México deu status legal, depois de muita luta, à experiência de acesso à emissão e recepção de som e mensagem por aparelhos celulares simples por parte de comunidades rurais. Ao todo, três mil usuários estão sendo beneficiados, mostrando que a telefonia comunitária é um caminho possível, informa outro artigo da publicação.

A história da comunicação no Brasil passa por desafios, apontados por Thiago Novaes, pesquisador em telecomunicações. E foi na leitura desse artigo que mais me surpreendi com a quantidade de informações que eu não sabia a respeito dos marcos jurídicos da comunicação no país. É um imbróglio que merece ser destrinchado muito devagar porque há vários meandros. O tom dissonante é que, muitas das vezes, as rádios comunitárias precisam se explicar demais para serem instaladas, já que são confundidas com rádios clandestinas.

A publicação da Amarc faz perguntas, dá muitas respostas, busca se distanciar do pensamento polarizado e, talvez por isso, tem muitos formatos. Reproduz encontros presenciais para debater o tema, dá espaço para especialistas escreverem sobre leis e informa bastante. Através do artigo escrito por Rafael Diniz, especialista em informática, o leitor fica sabendo, por exemplo, que o rádio é o último meio eletrônico de massa ainda operando em modo analógico. Foi em meados de 2000 que começou, por aqui, a história do rádio digital. Muita gente não quer ouvir falar a respeito, não quer misturar alhos e bugalhos, não larga mão do afeto que tem pelo pequeno aparelho que traz perto do ouvido.

Misturar tanta modernidade com uma história quase ancestral pode ser o único caminho. Mas aqui vale a reflexão: vamos, finalmente, perceber que a internet é democrática até certo ponto, já que tem que ser paga e que exige computador, um aparelho ainda caro? A publicação segue pelo segmento das dúvidas, o que é sempre melhor do que o das muitas certezas. Tem até mesmo uma história em quadrinhos, formato usado para ressaltar o papel hegemônico das rádios comerciais. Reclamar contra isso faria um bem enorme aos ouvidos, mas quem há de ouvir, se as rádios têm apenas uma via?

"Imagine uma rádio onde você, como ouvinte, pudesse atuar o tempo todo. Assim era o rádio no início, um aparato com duas caras, sempre transmissor e receptor ao mesmo tempo. Logo chegaram os militares, empresários e governos para implementar outro modelo", conta a história em quadrinhos.

Para ouvir e ser ouvido seria preciso um dispositivo que não fosse o celular, já que isso significaria falar com uma pessoa só e teria que ser pago.

"Isso deveria ser organizado pelas comunidades mesmo. Já existem algumas experiências nesse sentido. No Sul do México tem uma dúzia de comunidades indígenas que organizam as suas próprias redes locais de telefonia celular. E, na Amazônia, ouvi falar de uma reserva ecológica onde usam transmissores de ondas curtas para se comunicar em rede", diz o texto dos quadrinhos.

Voltemos, então, para Negra Linda, que fala de um lugar bem conhecido e exemplifica sua fala com experiência própria. É afrodescendente e defende as rádios comunitárias como facilitadoras também de acesso à cultura dos quilombolas. Convive com pessoas que não moram no Sul, Sudeste e ressalta: "O povo esquece que tem Norte, Nordeste, principalmente a Amazônia". Em localidades que não fazem parte do centro nervoso do país, a comunicação popular tem um peso, e muito grande, na vida das pessoas:

"Ela vai para o dia a dia das pessoas, consegue mostrar a realidade. Tem coisas que a gente não vê na televisão e escuta nas rádios comunitárias, tem músicas que a gentenão ouve na grande mídia e escuta nas rádios comunitárias, assuntos que não vê serem debatidos na grande mídia. E essa liberdade que a gente tem na comunicação popular e comunitária, de falar de assuntos que são nossos e do nosso jeito, é muito importante", diz ela.

É muito pano para manga. Mas a importância desse tema exige uma participação efetiva de todo mundo. Se me permitem uma comparação exagerada, é quase tão importante selecionar o que comemos quanto aquilo que ouvimos, assistimos, lemos. E sim, a via precisa ser de mão dupla. A publicação da Amarc tem informações suficientes para nutrir um bom início de conversa. Daqui mais ou menos um mês será disponibilizada no site da organização.


http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/o-lugar-das-radios-comunitarias-no-mundo-digital.html

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A culpa da grande mídia ao tratar da Lava Jato




O artigo Considerações sobre a mani pulite, escrito por Sérgio Moro em 2004, é um elogio à operação Mãos Limpas, investigação judicial que aconteceu na Itália na década de 1990. Principal inspiração da Lava Jato, a Mãos Limpas teve um resultado desastroso sob os pontos de vista político e econômico: a Itália tem um dos índices de corrupção mais altos da Europa, e o PIB é praticamente o mesmo de 12 anos atrás. Naquele texto, o juiz paranaense afirma que a mídia teve um papel decisivo durante a operação: “minar” a imagem dos réus junto à opinião pública, deslegitimando os argumentos da defesa.

“A investigação da mani pulite (Mãos Limpas) vazava como uma peneira. Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no L’Expresso, no La Republica e outros jornais e revistas simpatizantes”, descreve Moro na terceira página do artigo. “Os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva. (…) O processo de deslegitimação foi essencial para a própria continuidade da operação mani pulite”.

Olhos abertos

A exemplo do que Sérgio Moro constatou sobre a operação Mãos Limpas, a imprensa brasileira também contribui para o avanço da operação Lava Jato. Ao alimentar boatos sem a devida checagem, promover vazamentos seletivos e “condenar” os réus antes mesmo da sentença judicial, o noticiário brasileiro tem sido um prato cheio para pesquisadores especializados em ética jornalística.

Professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF) aposentada em 2016, Sylvia Moretzsohn estuda as relações entre a ética e os dilemas do jornalismo. Segundo ela, é natural que os interesses das empresas de comunicação interfiram nas coberturas, mas os jornais deveriam preservar o senso crítico e a checagem rigorosa das informações.

“O jornalismo não se justifica se não defender causas. O problema é como as defende, se é panfletário ou não. É preciso conciliar isso com uma postura rigorosa na apuração, na divulgação, e não é isso que a gente está vendo”, analisa a pesquisadora. “A mídia passou a reproduzir a ideia de que ‘nunca se roubou tanto’ quanto nos governos PT. E a intenção foi clara: derrubar o governo (Dilma) e fazer um acordo em favor de interesses (econômicos) que estavam sendo suavemente contrariados”, completa.

Superficialidade

Questionada sobre a cobertura da Lava Jato após o golpe de 2016, Moretzsohn afirma que a “fórmula” é a mesma desde 2005, quando veio à tona o caso Mensalão. “É a partir daí que a coisa começa a degringolar de maneira escandalosa: a espetacularização da Justiça, a proeminência do Judiciário como ator político”, critica. “O Mensalão já tem a figura do juiz ‘salvador da pátria’, que foi o Joaquim Barbosa, mas a Lava Jato radicaliza isso, principalmente devido ao juiz de primeira instância, que mais de uma vez optou por condenar sem provas – como no caso do (José) Dirceu. Ele (Moro) está seguindo rigorosamente o script que descreveu no artigo em 2004, de usar a mídia em favor da operação”.

Em meio ao “fla-flu” ideológico, a pesquisadora lamenta que o jornalismo brasileiro apenas reforce o senso comum, apostando em colunistas políticos que associam a Lava Jato a uma luta “do bem contra o mal” – que supostamente levaria ao fim da corrupção. “A responsabilidade de qualquer jornal que não seja fascista é não dar espaço a essas vozes superficiais, que só reproduzem ódio”, acrescenta a pesquisadora. “O respeito à ética é importante, mas não temos um conselho de ética com poder efetivo. Seria interessante se houvesse uma legislação de imprensa que garantisse a liberdade e punisse gravemente essas práticas, que se avolumam na nossa história recente”.

O Observatório da Ética Jornalística (ObjETHOS), vinculado ao Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), possui uma equipe de vinte pesquisadores, responsáveis por publicar dossiês, artigos e comentários semanais sobre a cobertura da imprensa brasileira e internacional. A operação Lava Jato é um tema recorrente no portal do Observatório, justamente por ocupar a maior parte do noticiário político do país desde 2015.

Procurador da Lava Jato deveria pedir desculpas. Por Joaquim de Carvalho

Já que o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima gosta de usar o Facebook, para comentários sobre política e desabafos, ele bem que poderia ser o primeiro a pedir desculpas a Dilma Rousseff por ter colaborado, conscientemente ou não, para tirá-la da presidência da república.
Em uma de suas mais recentes postagens, ele diz:

Infelizmente, entretanto, algumas das pessoas que nos apoiavam o fizeram por motivos mesquinhos ou ingênuos. Os primeiros queriam apenas substituir um partido pelo seu próprio partido, sem qualquer pretensão de buscar o bem comum.

O fato é que a Lava Jato contribuiu, decisivamente, para o resultado do jogo político.

Carlos Fernando não sabia que os policiais federais que trabalharam ou trabalham com ele militavam nas redes sociais em favor da campanha de Aécio Neves a presidente? Igor Romário de Paula, um dos delegados que chefiam a Lava Jato, pediu votos nas redes sociais para Aécio e participou de um grupo no facebook chamado Organização de Combate ao Crime Organizado. A imagem do grupo mostrava Dilma com dois dentes para fora da boca e o selo “Fora, PT!”.

Em uma das postagens, que mostravam Aécio rodeado de mulheres, escreveu: “Esse é o cara!!!!!”

Ele também compartilhou link de uma revista inglesa (Economist), que defendia o voto em Aécio: “Brasil precisa se livrar de Dilma e eleger Aécio”.

A jornalista Júlia Duailibi, do Estadão, relatou este e outros exemplos de militância em favor de Aécio no interior da Lava Jato. “Alguém segura essa anta, por favor”, declarou o delegado Marcio Anselmo, ex-coordenador da Operação Lava Jato, em uma notícia cujo título era: “Lula compara o PT a Jesus Cristo”.

Como cidadão, a manifestação é livre, mas, para policiais que trabalhavam na investigação de corrupção nas estatais do governo, declarar apoio a Aécio significava fechar os olhos para o que já se sabia da participação do PSDB nos esquemas de roubalheira.

A Lava Jato foi seletiva contra o PT e contra um ou outro membro do PMDB até que, em Brasília, a equipe de Rodrigo Janot escancarasse as portas que blindavam Michel Temer, Aécio Neves e outros tucanos.

O que foi feito com a informação, contida na delação de Nestor Cerveró, de que o filho de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Henrique, foi beneficiário da corrupção na Petrobrás? Ele prestou depoimento? Teve sigilo quebrado, como aconteceu com os filhos de Lula?

Duas fotos são simbólicas desse momento em que a Justiça, principalmente em Curitiba, se apresenta com dois pesos e duas medidas. Em uma, Moro aparece sorridente conversando ao pé do ouvido com Aécio. Em outra, ele sorri feliz no cumprimento a Michel Temer.

A Lava Jato de Curitiba foi tudo, menos republicana.

Comparando as datas das principais fases da operação com o calendário eleitoral ou das manifestações, encontra-se uma sincronia.

Por exemplo, no dia 6 de março de 2016, Moro determinou a condução coerciva de Lula, sexta-feira da semana anterior a uma manifestação programada pelos movimentos anti-PT – o pretexto era corrupção, mas a motivação era outra: vingar-se da derrota eleitoral de 2014.

Os líderes das manifestações em todo o Brasil comemoraram o que chamaram de injeção de ânimo dada pela Lava Jato com aquela condução coercitiva.

Um deles, Syllas Valadão, de um movimento chamado Patriotas, disse que a presença do público nas ruas dobraria graças à força dada pela turma de Curitiba.

E foi o que aconteceu.

Era uma manifestação de enorme maioria branca e de classe média. Mas, para quem queria uma foto de muita gente na rua para justificar a derrubada da presidente, isso não importa. Era o que faltava para impulsionar o golpe.

Com o apoio dos antigos adversários de Dilma e do PT, Michel Temer mudou de lado e assumiu, pouco depois, o Palácio do Planalto. E do palácio ele não quer sair, apesar do selo que carrega na testa: “chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil”, como definiu o corruptor confesso Joesley Batista, na entrevista à revista Época. Michel Temer tem, a seu favor, o silêncio cúmplice dos ex-batedores de panela.

Em 26 de setembro de 2016, também na sexta-feira da semana anterior às eleições municipais, a Lava Jato prendeu Antônio Palocci, ministro da Fazenda de Lula.

O ministro da Justiça de Temer na ocasião, Alexandre de Moraes, deixou um registro histórico, ao antecipar para militantes do MBL em Ribeirão Preto que haveria uma grande operação na véspera da eleição. “Vocês vão se lembrar de mim”, disse ele, com um sorriso maroto, conforme captaram câmeras de celular dos militantes de direita.

A vitória do PSDB, partido a que o ministro Alexandre de Moraes era filiado, e a derrota do PT devem, em grande medida, à repercussão da prisão de um dos nomes mais expressivos do PT. Quanto a prisão de Palocci contribuiu para que não houvesse segundo turno em São Paulo e Doria vencesse com facilidade?

Óbvio que ninguém defende a impunidade – se há motivos para Palocci ser investigado, processado ou até mesmo preso, que seja –, mas parece evidente que o relógio da Lava Jato de Curitiba parecia sincronizado com as ações da direita no Brasil.

No desabafo postado no Facebook, Carlos Fernando dos Santos Lima diz que algumas das pessoas que os apoiaram o fizeram por motivos mesquinhos ou ingênuos. E sobre ele próprio e os demais membros da Lava Jato de Curitiba? Ao conduzir uma investigação e um processo que, ao final e ao cabo, serviram para derrubar Dilma e agora interditar Lula, o fizeram por ingenuidade ou mesquinharia?

Ou existe outra motivação?

Aécio Neves: Por que a prisão provisória é negra e pobre no país? Por Leonardo Sakamoto

Caso o Supremo Tribunal Federal negue o pedido de prisão provisória do senador (afastado) Aécio Neves (PSDB-MG), no âmbito do inquérito aberto por suspeita de corrupção e obstrução de Justiça, a corte deveria aproveitar o momento e também ordenar a revisão imediata da situação dos 221 mil presos que não contam com sentença definitiva, muitos dos quais acusados de crimes que não envolveram violência direta, e garantir que respondam em liberdade.

Não estou dizendo que o senador é culpado. Mas há centenas de milhares de pessoas que, como ele, afirmam que também não são, mas seguem presas sem terem sido consideradas culpadas.

No último balanço do próprio governo federal, o país contava com 250 mil presos sem condenação em qualquer instância em 2014. Levantamento, deste ano, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que os presos provisórios representam, ao menos, 34% da população carcerária. O tempo médio de prisão provisória é alto: de 172 dias em Rondônia a 974 dias em Pernambuco. Do total, 29% dos provisórios são acusados de tráfico de drogas, 7% de furto e 4% de receptação. Homicídios respondem por apenas 13% do total. Quase 40% são absolvidos logo na primeira instância de julgamento. Ou estamos punindo injustamente inocentes ou colocando pessoas que cometeram delitos mais leves para ”estudar” em cadeias superlotadas.

Do ponto de vista estatístico, as chances de uma pessoa como o senador são maiores de esperar o final de uma investigação ou de um julgamento em liberdade: ele é influente, branco, rico e tem bons advogados. E a maioria dos presos provisórios é anônima, negra, pobre e sem advogados constituídos.

Um levantamento da Defensoria Pública do Estado de São Paulo apontou que, do total de homens que deram entrada em centros de detenção provisória e responderam ao questionário, 62% tinham até 29 anos, 65% se declararam negros e 81% não tinham advogado. Entre as mulheres, 64,5% se declararam pretas ou pardas, 60,7% até 29 anos e 80% não contava com advogado.

Um pedido semelhante a esse do primeiro parágrafo deste texto já foi feito e aguarda análise do STF.

Em maio, o Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos solicitou ao Supremo Tribunal Federal um habeas corpus coletivo para que todas as gestantes ou mães de crianças de até 12 anos que estejam em situação de prisão provisória possam ser beneficiadas com prisão domiciliar – como prevê a legislação. Os advogados do Cadhu usaram como justificativa a decisão concedida em nome de Adriana Ancelmo, esposa do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral.

Ela, que era acusada de corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato, chegou a ficar presa, mas foi solta após a defesa argumentar que um de seus filhos tem 11 anos de idade. Ela acabou absolvida pelo juiz federal Sergio Moro.

”O caso de Adriana Ancelmo expôs a enorme seletividade do sistema de Justiça, inclusive do Ministério Público e do Judiciário”, afirmou Eloísa Machado, professora da FGV Direito SP, coordenadora do Centro de Pesquisa Supremo em Pauta e membro do coletivo de advogados, a este blog na época.

Para ela, entre as razões da Justiça ser seletiva está o fato do Brasil ser um ”país racista e desigual” – o que contamina as instituições que devem executar a legislação. ”Uma parte da população usufrui as garantias do estado de direito e outra não. Isso não se resolve deixando de aplicar a lei a todos, mas ao contrário.”

Seria ótimo democratizar o acesso aos direitos no Brasil. Mas ele, pelo visto e com algumas raras exceções, continua uma questão de classe.


http://municipiosbaianos.com.br/noticia01.asp?tp=1&nID=35120&tema=politica

Fonte: O Cafezinho/DCM/BlogdoSakamoto/Municipios Baianos